Sob a Lua Sangrenta
A noite se estendia sobre a floresta como um manto negro e pesado, as árvores se balançando suavemente com a brisa fria que anunciava uma lua cheia sangrenta. No alto, a lua estava avermelhada, como um presságio de que algo grande estava prestes a acontecer. Nas sombras, dois lobisomens de alcateias diferentes observavam um único ponto: uma mulher renegada, cuja presença na floresta era uma ameaça e uma promessa.
Lyra, a renegada, tinha olhos tão intensos quanto o fogo e um coração partido pelas cicatrizes de um passado cruel. Nascera numa alcateia nômade, mas a traição dos seus próprios irmãos a tornara uma fugitiva, marcada como uma ameaça. Sua pele possuía a graça de um lobo, mas seu espírito era solitário, distante de qualquer clã. Ela se escondia entre as árvores, fugindo de todos, mas era impossível não ser vista.
E ali estavam eles, Kai e Alaric, dois lobisomens que representavam mundos opostos. Kai, com os olhos dourados como o sol nascente, e a pele escura que refletia a força de sua alcateia. Ele era orgulhoso, um líder nascido para comandar, e seu coração estava preso às tradições de sua família. Sua alcateia, Auralis, era conhecida pela lealdade feroz e pela honra. Kai jamais perdoaria uma renegada como Lyra, pois ela representava tudo o que ele odiava.
Alaric, por outro lado, vinha de uma alcateia menor e mais selvagem, chamada Ferrum, onde as leis eram mais flexíveis, e as disputas por poder eram resolvidas em combate direto. Seus olhos, prateados e penetrantes, refletiam a dor de quem fora forçado a escolher entre o amor e a lealdade à sua alcateia. Ele conhecia o sofrimento de Lyra, pois também era um solitário, marcado por sua história de rejeição.
Kai e Alaric estavam unidos por uma coisa: ambos sentiam algo por Lyra. Algo que os dividia. Kai, com sua visão rígida e seu coração fechado, desejava subjugar Lyra, trazê-la de volta à sua alcateia para puni-la. Alaric, com sua natureza indomável, sentia uma atração perigosa por ela, uma conexão profunda que o impedia de se afastar, mesmo sabendo que isso o colocaria em risco. E ela, ao mesmo tempo que odiava cada um deles, não conseguia negar o magnetismo que existia entre eles, uma tensão que queimava como fogo selvagem.
O destino os uniu em uma clareira, onde as árvores eram velhas e sussurravam segredos ancestrais. O vento soprava forte, fazendo as folhas dançarem no ar. Kai e Alaric estavam em lados opostos, mas seus olhares estavam fixos em Lyra. Ela estava no centro, uma figura solitária e forte, mas vulnerável como uma chama prestes a se apagar.
"Você sabe o que fazer", disse Kai, sua voz firme e desafiadora. "Venha comigo, Lyra. Sua sobrevivência depende disso."
Lyra levantou o rosto, seus olhos ardendo com raiva e dor. "Não preciso de salvação de você, Kai. Não vou me submeter a nenhum de vocês. Nunca mais."
Alaric deu um passo à frente, sua voz suave, mas carregada de uma necessidade desesperada. "Lyra, eu... não sou como ele. Não quero que você se submeta a ninguém. Só quero estar ao seu lado."
O vento trouxe o cheiro de terra molhada, a promessa de uma tempestade. O conflito entre eles era visceral, uma batalha de almas que ecoava pelo bosque. Lyra sentia a pressão aumentando, como se o mundo estivesse prestes a desabar sobre eles.
"Vocês não entendem", ela murmurou, com os olhos lacrimejando. "Eu não posso pertencer a nenhum de vocês. Eu sou um monstro... e os monstros não têm um lar."
Kai avançou, os músculos tensos como aço, e sua mão se fechou em um punho. "Você foi uma traidora, Lyra. E vai pagar por isso."
Mas Alaric não se moveu. Ele olhou para Lyra com uma intensidade que poderia rasgar a alma. "Você não é um monstro, Lyra. Eu vejo o que você é. E se precisar lutar ao seu lado, lutarei."
Os dois lobisomens estavam prontos para se enfrentar, mas Lyra, sentindo o peso da escolha, deu um passo para trás. "Eu não sou de ninguém. Não sou de nenhuma alcateia. Não sou sua, Kai. Não sou sua, Alaric."
A lua cheia acima parecia refletir seu coração partido, iluminando o campo com uma luz cruel e implacável. A tensão no ar era palpável, mas o que vinha a seguir era incerto. Seriam eles capazes de vencer seus próprios demônios para encontrar um meio de viver juntos? Ou a divisão entre as alcateias, e o peso de suas próprias lealdades, os destruiria?
*Continua...

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